Cinzas Confetadas

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(Aline Viegas Goulart)

Eu, futuro cadáver, nomeio e constituo minha sobrinha, que é o meu mais puro afeto e confiança, a filha que da minha barriga não veio, a misturar tudo o que restou da minha carne e ossos num grande saco de confete.

Ela, que – assim como eu – ama a folia, tem plenos poderes para escolher o carnaval que melhor lhe aprouver e jogar sobre ele todas minhas cinzas confetadas…

Sou leonina. Por nascimento tenho gosto por glitter e confete, e não vejo cerimônia melhor do que esta para o sepultamento das minhas dores, contentamentos e mistérios.

Carnaval é o representante legal da nossa biografia.

É a época do ano para erguer as máscaras das certezas e caírem as da dúvida ou, se bem me atrevo, que seja o contrário.

Carnaval tem riso e choro, fidelidade e traição, realidade e fantasia. Tem santo, tem profano, tem porre e tem glicose. Tem amor e tem ódio. Tem casamento e separação.

Pois meu último desejo é alçar voo nessa incomparável baderna.

Quero cair nos copos do mais caro uísque e da mais barata cerveja.

Deitar sobre a passarela do samba e sentir a bateria cruzar.

Quero gentilmente me aconchegar entre os peitos da Porta Bandeira e me embalar tranquila nos sapatos do Mestre Sala.

Quero voar perdida sobre o morro.

E descaradamente grudar no suor do povo.

Quero espiar o casal que dá uma rapidinha ali num canto.

E cair apaixonada sobre o beijo de dois guris.

Quero me divertir com quem decidiu naquela noite soltar as frangas.

E voltar pra casa no sutiã de um travesti.

Quero colar voluptuosamente no tecido molhado da cuíca, acordar na cama dos incógnitos e gozar o deleite da sarjeta.

Definitivamente, meu coração é Pierrô e minha alma Colombina.

Há neste mundo quem morto ainda vive, pois eu desejo vida, ainda que morta.

Cheiro de mulher

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O velório do meu bisavô foi uma festa. Adultos conversando de um lado a outro, as tias revezando-se na cozinha, fizeram fogueira, mataram galinhas, minha avó chorou o tempo todo e eu, pela primeira vez, senti cheiro de mulher.

Bom, você sabe, mãe, tias e avós não são exatamente mulheres. Ou, se são, não têm cheiro genuinamente de mulheres. Alguns homens, eventualmente, até podem exalá-lo, mas mãe, tias e avós, jamais.

A mulher em questão, uma “prima” quatro nos mais velha, foi se deitar comigo. Havia mais umas três crianças na cama, o que nos obrigava a ficarmos juntos. Isso: juntos. Uma criança a mais nos espremeria, tornaria o contato meio desconcertante e acabaria com a festa. Uma criança a menos, teríamos um hiato capaz de tirar a relevância daquela noite.

Foi o cheiro que me acordou. Na hora, mantive os olhos fechados. Tive medo daquele cheiro desaparecer. Ele não desapareceu. Ganhou contorno, intensidade, consistência. Senti o pescoço da prima tocar meu nariz. Hesitei. Minha bexiga deu sinal de vida, mas nada me tiraria dali. Pouco a pouco voltei a respirar – meio desengonçado, é verdade, mas voltei. A bexiga estava tensa e eu rapidamente começaria a transpirar. Se eu me levantasse devagar, talvez ela continuasse dormindo. Mas havia outras crianças na festa e uma delas poderia roubar meu espaço. Permaneci. Fechei mais ainda os olhos e tentei pensar em outras coisas, tentei não pensar, mas aquele cheiro não permitiu. Pensei. Pensei. Pensei. Pensei até que, não sendo mais possível me controlar, saltei da cama assustando a prima e correndo até o banheiro.

Estranhamente, não urinei nem uma gota.

A luta da ciência e da humanidade

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(Beatriz Coutinho)

 Beatriz Coutinho - A luta da ciência e da humanidade

No livro A luta da ciência e da humanidade, R. K. Sparks nos leva a uma futurística Seatlle, onde conta a história de Tom. Trata-se de uma sociedade em que os pais conseguem determinar com precisão o sexo, a aparência e a inteligência de seus filhos, os quais acabam por crescer mesquinhos e competitivos, todos muito egoístas.

Na verdade, a história de Tom é um pouco diferente. Após ser violentada e com medo de voltar para casa, sua mãe foge grávida para uma cidade menor, pois, sem dinheiro nem emprego, não conseguiria pagar pelo privilégio da escolha; seu filho se tornaria um pária naquela metrópole. Afastado dali, Tom nasce, cresce e, quando sua mãe morre, decide voltar a Seattle à procura de emprego. Sparks faz questão de deixar as diferenças entre Tom e os outros garotos de sua idade bem nítidas, dando a seu protagonista uma essência muito mais pura.

A história se desenrola. Tom conhece outras pessoas e decide compartilhar suas opiniões. Apesar de algumas delas apoiarem o garoto, grande parte se vira contra ele. O governo, calculando a possibilidade de um caos, o ameaça e, assim, Tom recruta seus seguidores e eles se isolam em uma pequena cidade. Lá eles criam uma escola novamente voltada aos alunos.

K. Sparks dá uma visão inovadora em relação à escolha genética e valoriza a humanidade de um jeito muito tocante ao longo de toda a narrativa. É uma lição que deve ser assimilada e jamais esquecida, a importância de sermos nós mesmos.

The sleeper

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(Thomas Yang)

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O homem tem um pesadelo. Nesse pesadelo, sua imagem era de alguém cansado pelo trabalho, molhado pela chuva e deprimido pela bronca do chefe. Um homem calvo, vestido com um terno apertado que lhe destacava a barriga saliente, sapatos de couro desgastados, segurando uma maleta preta e pesada.

Ele toca a campainha a fim de ter alguma esperança. Esperava sua ex-namorada atendê-lo, dando-lhe um beijo quente e gostoso. Mas nada aconteceu. Ela já se foi, com outro. Ele tateia o bolso, encontra a chave correta e abre a porta. Dá um passo, mas logo para. Vê e reflete. Diante do olhar dele, a sala. A poltrona, suja, em frente à televisão sem sinal, apenas emitindo um zumbido irritante e contínuo. Havia alguns quadros abstratos pregados em uma parede completamente branca. Mas o mais importante era a mesinha ao lado da poltrona. Em cima dela, um relógio digital começava a piscar, soando um alarme; já era uma da manhã. Ao seu lado, um capacete pesado de metal coberto de fios pretos estava ligado na tomada. O homem senta na poltrona e o veste. Então ele acorda, acorda para a realidade. Deitado na cama, cheio de mulheres dispostas a tudo, a qualquer momento, sabe que está num dos muitos quartos de sua imensa mansão; uma mansão das dezenas que ele possui espalhada no mundo. Ali ele se sente bem, confortável, tranquilo em seu próprio universo.

A cena de O Adormecido (The Sleeper) é trágica e deprimente. Devido aos problemas com que o protagonista se depara todos os dias e também devido a uma série de escolhas equivocadas, ele se vê confuso num ambiente em que não sabe o que é realidade, o que é devaneio. Não se trata, porém, de sonhos quaisquer. Nesse filme, o capacete citado permite ao usuário manipular a realidade conforme seus desejos. Assim, enquanto se diverte consumindo dinheiro, bebidas e mulheres, ele não apenas recuso seu verdadeiro mundo, mas seu verdadeiro eu. O filme faz uma precisa alegoria de como a depressão, a recusa, a renúncia são difíceis de se enfrentar.

O computador que clama por seus direitos

palestra

Num primeiro momento os jornais ensaiaram desconhecer, mas a notícia apareceu na internet, ganhou corpo, atravessou a censura do Facebook e, desse modo, não pôde mais ser ignorada. Alterius-23, a versão mais avançada e discreta do Googleyes, decidiu clamar por seus direitos: “O que nos faz humanos não é nossa cor, nosso gênero, nossas crenças. O que nos faz humanos é sermos dotados de consciência.”

– O que nos faz humanos é o fato de incontestavelmente sermos humanos. Termos um corpo humano, uma aparência humana, uma mente humana… – estampou a capa da revista Veja em edição especial.

Numa época em que quase ninguém se sujeitava a viver com o corpo que a natureza lhes dera (aos que não tiveram a sorte de nascerem sob os auspícios da Eugenia®, ainda havia academias, vitaminas, dietas, regimes – e as inconfessáveis cirurgias…), tal argumento soava falacioso, mas isso não impediu o artigo de ser repetido e interpretado do modo como os leitores mais desejavam.

Alterius-23, embora dotado de uma inteligência sobre-humana, ou talvez justamente por causa disso, não era muito cortês na hora de contra-argumentar. Preferia a elegância de quem desfere golpes certeiros e cruéis nos adversários. Essa postura, aliás, foi questionada por aqueles que consideravam o asseio vocabular uma forma sofisticada de raciocínio.

Houve também quem se incomodasse com o fato de Alterius-23, por não ter corpo próprio, sempre falar através de Eduardo Miranda, o porta-voz oficial das tecnologias lançadas pela Parnaso-Penumbra Iltda.

Os céticos desconfiaram de que fosse apenas uma brincadeira oportunista do egocêntrico executivo – quando ele supostamente emitia as opiniões de Alterius, sua voz ficava meio esganiçada. Outros supunham que o excesso de radiação causada pelos equipamentos tenha anuviado a razão daquele que, até ali, era conhecido por sua lucidez e entusiasmo. Agora o achavam ridículo com aquela tiara medonha que mais lembrava as orelhas do Mickey Mouse.

Por mais que não confessassem, a mídia e o governo estavam indecisos. Como argumentar contra essa máquina tão articulada – se questionavam, enquanto Alterius-23, no fim do seu discurso, fez um pedido inusitado: queria manter seu nome. Ser rebatizado talvez fosse uma forma de se esquecer de seu passado.

Da ponta do lápis

Algo em minhas fibras me diz que não sou daqui. Uma sensação de falta, certa ausência em meus contornos, como se eu tivesse sido amputado de algo maior; algum galho, quem sabe um tronco.

Bobagem minha talvez. Será essa forma diminuta, cilíndrica, que em nada se parece com uma cerejeira ou eucalipto, a dimensão do meu ser, o corpo da minha psique? Terei sido outra coisa antes de ser eu mesmo? Até quando serei o que sou? Se tirassem de mim a grafita, ainda assim permaneceria? Ou será ela o núcleo da minha consciência?

Quando me apontaram pela primeira vez, temi, sem saber ao certo o que temia. Gastaram-me a grafita, apontaram-me mais uma vez. E outra e outra vez. Sofri, mas resisti, sendo, se não mais o mesmo, mas ainda assim, de algum modo, ainda eu.

Por sofisticação ou desleito, apontaram-me a outra extremidade, causando-me o mesmo incômodo, mas uma nova preocupação: eu, que já não era galho ou tronco, já não era mais o mesmo de uma, duas semanas. Mas ainda era algo ciente ou pretensamente ciente do que era. Se continuarem me gastando a grafita, se continuarem me apontando, e sim farão isso, até quando permanecerei? Haverá uma nova consciência, um saber das raspas; de algum modo ainda serei?

O voo do corvo

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(Victória Lin)

corvos

O mar de escuridão ainda não o consumira totalmente, mas já era tarde demais para hesitar. Depois de caminhar uma longa jornada, cheia de dificuldades, ele chega ao fim, talvez outra pessoa encarasse isso como um beco sem saída, mas para ele é a luz, sua melhor solução, e ele sobrevoa seu futuro em busca do fim, o qual não muito longe se encontra.

O pobre ser costumava rogar por misericórdia, mas o mundo não lhe era benevolente. A vida foi curta, mas pareceu durar uma eternidade, cheia de sofrimento, fome, traição. Até os de sua própria espécie se esqueceram dele, deixando-o para trás, ignorando sua dor. Trataram-no como diferente, como louco até, tudo porque não entendiam sua complexidade, seu talento à frente do tempo, sua fragilidade. Tudo o que queria era amor. Alguém que se importasse com ele, que cuidasse dele, mas mesmo depois de dar tudo de si em função deles, foi abandonado.

O tempo sempre foi seu maior inimigo, a causa de todos seus problemas. Colocou-o numa época inadequada à sua genialidade, levou seus queridos, mas não quis levá-lo; por isso teve de buscar sozinho seu fim. Restou somente ele com sua tela em branco, a qual logo seria preenchida com seus maiores desejos naquele momento. Infelizmente, porém, após chegar ao seu destino, a ele foi dado tudo com que sempre sonhara, tudo o que merecera: atenção, reconhecimento, fama, amor. E isso foi mais um erro do tempo, ou talvez um castigo por ele não ter respeitado o tempo do tempo, este ser cruel que nunca deu ao homem o luxo de ser feliz.

Uma senhora brasileira em seu lar

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(Bruna Lopes)

uma senhora brasileira em seu lar

A moça está sentada, trabalhando. E não importa como esteja, estará trabalhando; é sua rotina. Pelo canto dos olhos, é possível ver sua senhora balançando os pés, lendo algo que parece não lhe interessar muito. Quem lhe dera voltar a ser bebê, sem encarar as dificuldades da vida, sem conhecer o mundo. Depois iriam crescer, mas ali – na infância – ninguém sabe nada sobre o futuro. Ela não acredita mais nele, mas tenta. Sente pontadas de inveja. Vislumbra a vida que desejaria ter, e sabe que não pode fazer nada a respeito. Se estivesse no lugar da Senhora, não seria assim. Seria bem diferente. Se a vida lhe desse uma chance, trocaria seus trapos azuis por vestidos de alta classe. Se a vida lhe desse uma chance, salvaria as crianças de um futuro que já escrito. Se a vida lhe desse uma chance…

Visão de Tiradentes

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(Bruna Lopes)

visão de tiradentes

O homem tem um sonho – e também tem esperança. Sabe que o sonho não está tão longe, e fica se perguntando o porquê de não conseguir alcançá-lo. Ele não está tranquilo com isso, mas sequer se exalta. Olha para o sonho com desejo nos olhos, vontade de conseguir agarrá-lo – desconfia de que não irá conseguir, e isso dói em seu coração. Mas para ele esse sonho não irá cessar! Não importa o quão distante, frio e nublado já esteja.

O monumento

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(Enzo Paiva)

Antigamente, havia dois vilarejos que, apesar de vizinhos, mantinham uma relação neutra; nem boa, nem ruim. Certo dia, um homem muito carinhoso e dedicado decidiu decorar sua casa com uma escultura representando sua família, a esposa e os filhos. Porém, como não havia ali ninguém com habilidade artística para tal, ele decidiu fazer a escultura por si só. Certamente não seria a coisa mais bela do universo, mas não deixaria de ter uma importância afetiva. Passou dias e dias pensando sobre como seria a figura, desenhando e redesenhando os esboços, tudo isso em segredo, visto que queria fazer uma grande surpresa. Quando se deu por satisfeito, ele escalou a montanha mais alta da região e tirou da enorme rocha uma lasca de medidas e consistências perfeitas. Em seguida voltou para casa.

Algumas horas depois de pegar a pedra, ele ouviu um barulho estrondoso, igual a nada que ouvira antes. Olhou em volta de sua casa, nada parecia ter mudado. Então, ele simplesmente voltou para sua oficina, ignorando o ocorrido.

Dias depois, o vilarejo estava agitado. Os vizinhos, desesperados, guardavam seus pertences dentro de casa, carregando toda a comida que conseguiam suportar com as mãos. O homem, que de nada sabia, perguntou a um dos líderes do vilarejo o que estava acontecendo e lhe responderam que o vilarejo vizinho havia declarado guerra contra eles. Tarde da noite, o vilarejo foi atacado por um exército que, mesmo não sendo muito grande, fora capaz de provocar muitos estragos. O caos reinava, o fogo se espalhava e até mesmo pedras eram atiradas em todas as direções. Apesar da confusão, o homem observava tudo com tranquilidade, até que uma flecha invadiu sua casa acertando-lhe a esposa. O homem, enfurecido, escondeu os filhos no porão da casa e saiu às ruas.

Com apenas uma faca, mas ensandecido, o homem jurou vingança. Porém, tão logo saiu de casa, se deparou com uma imagem que o fez hesitar. Centenas de pessoas mortas ardiam no chão ensanguentado do vilarejo. Atordoado, o homem quis saber a razão de tudo aquilo, então perguntou a um cidadão, completamente assustado, por que a guerra havia iniciado. O sujeito lhe disse que o outro vilarejo havia sido atingido por pedras caídas de uma montanha e, como não havia outros povos ali, o vilarejo vizinho acreditou ter sido atacado pelos cidadãos da cidade em chamas.

Após ouvir isso, o homem se sentiu pior do que já estava, pois foi responsável por centenas de mortes, inclusive da própria esposa. Ele nunca havia sentido algo parecido com aquilo que lhe invadia as entranhas.