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(Isabella G. Motta)

Eu não me lembro de muito. Lembro de estar em casa com meus pais e meus animais de estimação, do avião com destino a Roma, uma turbulência, a máscara de oxigênio, minha mãe dizendo o quanto me ama, gritos… um barulho pesado, um grande escuro. Acordei com dor de cabeça. Pedras, o mar ressoando, um aroma verde e a brisa suave me trazendo tranquilidade e desespero. Onde estou? Cadê meus pais? O avião… Levantei-me. Estava frio e escuro, estava com fome e sede, eu gritava, mas não havia ninguém. Depois de horas de caminhada, atordoada e sedenta, avistei algo claro.

FOGO!

Fui correndo e dei de cara com diversas pessoas, imaginei que fossem do avião. Prontamente me socorreram, mas não compreendia o que falavam. Havia outras coisas estranhas: não usavam roupas; folhas cobriam suas partes íntimas – só isso e nada mais. Eu estava com frio, muito frio. Colocaram-me então ao lado da fogueira, mas eu continuava faminta. Seria falta de educação pedir algo para comer, pensei – mas não era hora nem lugar para se preocupar com boas maneiras; gesticulei algo com meus braços tentando expressar minha fome.

Um deles deve ter entendido meus gestos, pois se afastou e voltou rapidamente com algo que eu nunca tinha visto. Ele me entregou um estranho fruto e, sorrindo, falou algo que não consegui entender. Mas senti na pele que aquele pomo de tamanho médio era satisfatoriamente pesado e continha uma casca áspera e espinhosa. Abri-o com meus dedos, pegando um pedaço. Um gosto predominante e depois um azedo quase imperceptível. No meio havia uma parte mais resistente, um pouco mais clara que, por algum motivo, me lembrava uma pérola – se pérolas fossem comestíveis, certamente teriam aquele gosto.

Depois, já tendo recuperado um pouco de minhas energias, fui levada a um lugar mais afastado. Por algum motivo, fiquei ansiosa, meu coração estava a mil e então entendi o porquê: meus pais estavam lá! Ainda não tinham me visto, seus rostos esboçavam preocupação e tristeza e também lágrimas. Mas lágrimas de felicidade. Correram para me abraçar, como era bom matar saudades.

De repente, a adrenalina baixou. Me senti bem e acolhida, o que me fez cair no sono assim que chegamos à cabana. Acordei com um barulho algo e insistente. Levantei-me e para minha surpresa havia um helicóptero resgatando as vítimas do avião. Acordei meus pais e meio que tropeçando em minhas pernas corri até o helicóptero. Meus pais conversavam alegremente com o piloto enquanto me despedia daquela linda paisagem, sentindo um vento gostoso que me trazia tranquilidade – desta vez só tranquilidade e nada mais.

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