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MELANCIA-COMUM-KG

(Hector Garcia)

Caminhava eu pela floresta fechada, lentamente com minha fiel companheira, uma requintada bengala de cedro que comprei em uma daquelas elegantes viagens à Europa de minha juventude. O mapa amarelado, que já poderia ter seus vinte anos, era o nosso guia. Essa imagem, tão inusitada, poderia ser compreendida como meros delírios de um velho louco, mas prefiro contextualizá-la com o real motivo pelo qual me perdia sem rumo pelas densas florestas da América do Sul.

O meu sonho sempre foi descobrir algo novo, andar por onde ninguém havia andado, experimentar o inimaginável. Sonho este que vivi adiando por toda a minha longa vida até agora, quando não há mais muito tempo para adiar. Decidido, juntei minhas economias, minha esperança e toda a força que restava; parti rumo à aventura.

Na mata, apesar dos sons e cheiros de animais desconhecidos, meu caminhar foi tranquilo. Mantive-me no controle da situação até que, acidentalmente, ao focar minha atenção no mapa, tropecei no que parecia ser uma grande pedra – sequer consegui me proteger. Felizmente, o chão úmido e coberto de folhas amenizou a queda; o susto foi maior que a dor. Mesmo assim, levantei-me com dificuldade e, confesso, desapontado – tudo por causa de um sonho bobo e fútil.

Apoiei-me em um tronco, peguei a minha bengala que estava manchada de terra e seiva, olhei para trás em busca da suposta pedra que me havia derrubado. Foi então que percebi não se tratar de uma pedra, mas de um fruto. Lembrava um melão, mas o tamanho era maior. Me aproximo e toco sua bela cor esverdeada; sinto uma textura lisa, lisa como madeira recém-polida. Cheio de curiosidade, abro-a com meu facão reluzente, herança de meu falecido pai, e corto um pedaço. Era um encanto! Dezenas de sementes cor marrom, que vou cuspindo uma a uma, não me impediram de apreciar o fruto rosado, cujo aroma me lembrava algum doce que comi tempos atrás em uma doçaria lisboeta ou talvez fosse o contrário. Talvez todos os melhores doces de minha vida fossem os preparativos para que meu paladar pudesse se deliciar com esse novo sabor. Provo também a parte branca, menos doce, levemente ácida, similar a um pepino. Era mágico. Guardo um tanto do fruto comigo e volto pelo mesmo caminho que entrei, pois agora posso me considerar completo. Estava tão feliz que sequer dei falta da bengala.