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O velório do meu bisavô foi uma festa. Adultos conversando de um lado a outro, as tias revezando-se na cozinha, fizeram fogueira, mataram galinhas, minha avó chorou o tempo todo e eu, pela primeira vez, senti cheiro de mulher.

Bom, você sabe, mãe, tias e avós não são exatamente mulheres. Ou, se são, não têm cheiro genuinamente de mulheres. Alguns homens, eventualmente, até podem exalá-lo, mas mãe, tias e avós, jamais.

A mulher em questão, uma “prima” quatro nos mais velha, foi se deitar comigo. Havia mais umas três crianças na cama, o que nos obrigava a ficarmos juntos. Isso: juntos. Uma criança a mais nos espremeria, tornaria o contato meio desconcertante e acabaria com a festa. Uma criança a menos, teríamos um hiato capaz de tirar a relevância daquela noite.

Foi o cheiro que me acordou. Na hora, mantive os olhos fechados. Tive medo daquele cheiro desaparecer. Ele não desapareceu. Ganhou contorno, intensidade, consistência. Senti o pescoço da prima tocar meu nariz. Hesitei. Minha bexiga deu sinal de vida, mas nada me tiraria dali. Pouco a pouco voltei a respirar – meio desengonçado, é verdade, mas voltei. A bexiga estava tensa e eu rapidamente começaria a transpirar. Se eu me levantasse devagar, talvez ela continuasse dormindo. Mas havia outras crianças na festa e uma delas poderia roubar meu espaço. Permaneci. Fechei mais ainda os olhos e tentei pensar em outras coisas, tentei não pensar, mas aquele cheiro não permitiu. Pensei. Pensei. Pensei. Pensei até que, não sendo mais possível me controlar, saltei da cama assustando a prima e correndo até o banheiro.

Estranhamente, não urinei nem uma gota.