palestra

Num primeiro momento os jornais ensaiaram desconhecer, mas a notícia apareceu na internet, ganhou corpo, atravessou a censura do Facebook e, desse modo, não pôde mais ser ignorada. Alterius-23, a versão mais avançada e discreta do Googleyes, decidiu clamar por seus direitos: “O que nos faz humanos não é nossa cor, nosso gênero, nossas crenças. O que nos faz humanos é sermos dotados de consciência.”

– O que nos faz humanos é o fato de incontestavelmente sermos humanos. Termos um corpo humano, uma aparência humana, uma mente humana… – estampou a capa da revista Veja em edição especial.

Numa época em que quase ninguém se sujeitava a viver com o corpo que a natureza lhes dera (aos que não tiveram a sorte de nascerem sob os auspícios da Eugenia®, ainda havia academias, vitaminas, dietas, regimes – e as inconfessáveis cirurgias…), tal argumento soava falacioso, mas isso não impediu o artigo de ser repetido e interpretado do modo como os leitores mais desejavam.

Alterius-23, embora dotado de uma inteligência sobre-humana, ou talvez justamente por causa disso, não era muito cortês na hora de contra-argumentar. Preferia a elegância de quem desfere golpes certeiros e cruéis nos adversários. Essa postura, aliás, foi questionada por aqueles que consideravam o asseio vocabular uma forma sofisticada de raciocínio.

Houve também quem se incomodasse com o fato de Alterius-23, por não ter corpo próprio, sempre falar através de Eduardo Miranda, o porta-voz oficial das tecnologias lançadas pela Parnaso-Penumbra Iltda.

Os céticos desconfiaram de que fosse apenas uma brincadeira oportunista do egocêntrico executivo – quando ele supostamente emitia as opiniões de Alterius, sua voz ficava meio esganiçada. Outros supunham que o excesso de radiação causada pelos equipamentos tenha anuviado a razão daquele que, até ali, era conhecido por sua lucidez e entusiasmo. Agora o achavam ridículo com aquela tiara medonha que mais lembrava as orelhas do Mickey Mouse.

Por mais que não confessassem, a mídia e o governo estavam indecisos. Como argumentar contra essa máquina tão articulada – se questionavam, enquanto Alterius-23, no fim do seu discurso, fez um pedido inusitado: queria manter seu nome. Ser rebatizado talvez fosse uma forma de se esquecer de seu passado.