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(Bruna Lopes)

Belo Horizonte, 17 de julho de 2000.

Olá, Matheus,

Como vai a vida? Você deve estar estranhando esta carta, visto que eu havia prometido nunca mais falar contigo. Infelizmente, porém, você é a única pessoa com quem eu posso “falar”.

Tenho duas novidades. Primeiramente, eu voltei a escrever, mas não por vontade própria; apenas para passar o tempo. Ando meio perdido, por isso, acabei escrevendo uma narrativa. A história é bem simples: o narrador é um preso que luta pela sua inocência. Ok, isso não tem nada de incrível. Diz que quer rever sua esposa, voltar para casa, que tudo foi uma armação e que tem as provas. Mas ele tem uns problemas.

Tentei fazer com que o texto enganasse o leitor o máximo possível. Queria fazer com que os leitores adorassem o personagem principal e torcessem por sua inocência. O narrador é ótimo com as palavras, ele se diverte enganando os leitores desavisados, mas ao longo do texto ele acaba cometendo uns deslizes que acabam desestabilizando sua realidade perfeitamente programada – e o leitor acaba descobrindo seu passado pouco a pouco…

Como eu queria fortalecer os laços afetivos entre os leitores e o protagonista, optei por trabalhar com a narração em primeira pessoa; isso nos levaria diretamente para os pensamentos do condenado. Com o tempo você acaba percebendo que ele não é tão normal quanto pensávamos. Para falar a verdade, ninguém é, mas ele… Eu acho importante o texto ser compreensível, mas talvez ele tenha ficado vago e sugestivo demais.

Desculpe, acabei me empolgando. A segunda novidade é que perdi o emprego. Apenas isso.

Quero pedir-lhe apena suma coisa: não conte a ninguém sobre mim, sobre essa carta. Não quero despertar rancores. Se não quiser responder, eu entendo, tudo bem. Espero que ao menos sirva como uma boa lembrança.

De seu irmão,

Felipe.