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(Victória Lin)

Foi a época mais pacífica para o Universo. Depois de enfeitar o mundo das mais diversas maneiras possíveis, o criador resolveu dar luz ao habitante. A criação acabara de ser finalizada com sucesso: andava, corria, se expressava. Mesmo estando naquele ambiente onde nada nem ninguém a auxiliava, nunca parecia sofrer. Eventualmente surgiam lágrimas e soluços, mas depois de alguns instantes tudo cessava e ela voltava a correr sem rumo.

O Universo estava satisfeito, havia criado vida, e apreciá-la sempre o divertia. Mas algo o incomodava. Apesar de agora ter uma companhia, esta não dava atenção a ele, na realidade, raramente seu rosto se erguia, tornando-se visível. O que estava errado? A criatura não deveria ser perfeita? Mesmo sendo extremamente sábio, não compreendia. Decidiu, portanto, dar vida a outra criatura, melhor, mais forte, mais astuta. E assim se fez, igual à sua antecedente, ela também foi criada a partir do sopro do Universo.

A nova criatura era linda, magnífica, perfeita – seu criador viu e pensou. Corria, interagia com o ambiente e até com sua antecedente, mas uma coisa – uma única coisa – não fazia: não olhava para o criador. Vendo que a nova criatura era igualmente defeituosa, decidiu dar vida a outra. Mas e se esta também se revelasse torta? Decidiu então criar muitas, mais do que poderia calcular, pois assim pelo menos uma seria perfeita. Era um ótimo plano, mas com uma grave consequência. O problema foi colocá-las todas em um só ambiente.

Incontáveis criaturas, uma mais astuta que a outra. Todas quase perfeitas – para fúria e indignação do criador. Até que um dia todas alcançaram a perfeição desejada por ele, todas – uma a uma – se viraram para ele. Não custou muito, foi só colocá-las em um lugar de recursos escassos que logo teriam de lutar umas contra as outras. Num ambiente em que todas eram inimigas em potencial, sem ninguém em quem confiar, começaram a rogar ao Universo a destruição alheia. O custo foi muito baixo. A tão sonhada perfeição foi alcançada graças ao mágico sentimento da maldade, um sentimento lindo que afastou uma das outras e as incitou a olharem para quem realmente importava. Forjou-se ali um olhar raivoso, muito mais profundo do que qualquer sentimento anterior, muito mais belo do que os sorrisos insignificantes de outrora e, o mais importante, estavam agora – todas elas – olhando para o criador, a quem realmente deveriam agradecer por desfrutarem de tudo aquilo.