(Júlio Lima)

Ana tinha uma vida perfeita. De lá pra cá ou de cá pra lá, era a mesma coisa. Seu quarto refletia a organização que era o seu cotidiano. Seus compromissos eram encaixados milimetricamente na sua agenda, cada horário em seu devido lugar, formando uma rotina inabalável. Tudo separado por área em post-its separados por cor em ordem cronológica. Ana comia de três em três horas, fazia trinta minutos de exercícios físicos diários e estudava, de segunda a sexta, oito horas por dia. Aos sábados, dedicava quatro horas às tarefas escolares, almoçava, passava a tarde na casa de seu pai e tinha três horas livres à noite, as quais gastava no cinema ou em algum restaurante, afinal, variar às vezes lhe fazia bem. Aos domingos, Ana compartilhava a mesa do café com sua mãe e padrasto, visitava a avó e cumpria seus compromissos religiosos. Ana era uma boa menina, uma menina perfeita.

Ana era muito educada e contida – ou talvez contida e educada. Media suas saias e suas palavras, nunca ofendia ou chateava ninguém. Tirava boas notas, embora não fosse muito participativa em classe. Conservava seus pensamentos e opiniões atrás de feições neutras e gostos comuns – era uma atriz tão boa que nem precisava interpretar, vivia a persona. Aprendeu, ao longo de sua vida, a guardar as coisas para si, e a guardar a si mesma do mundo.

Ninguém percebeu quando, numa manhã de segunda, Ana acordou quinze minutos mais cedo. Pela primeira vez, rompeu o vezo. Calmamente, sentou-se em frente à escrivaninha e deleitou-se sobre uma folha. Demorou mais do que imaginara, seu despertador tocou prontamente às seis, e logo notariam se não descesse para a cozinha. Deixou a carta incompleta, a lágrima no fim da página substituiria as palavras ausentes. Enxugou os olhos e seguiu. Distribuiu sorrisos e saudações e, como sempre, foi a garota indiferente e polida que todos conheciam. Depois da escola, pela segunda vez em sua vida, descumpriu o cronograma. Com a receita médica de sua avó, foi à farmácia e só depois disso foi para casa. Ao chegar, subiu até seu quarto e trancou a porta. Ana nunca se atrasou tanto para um jantar.