(Bianca Kimura)

Antes do início dos tempos, à beira do oceano, havia uma vila habitada por seres eternos. Ali, o tempo parecia não passar, era calmo e tranquilo como as águas daquele mar. Mar cujas ondas eram tão discretas que quase não eram percebidas. As pessoas daquele lugar não sentiam dor nem prazer, apenas viviam as vidas designadas a elas.

Mas um dia as ondas chamaram a atenção de toda aquela gente. Houve um dia em que aquelas ondas, aparentemente estáticas, trouxeram um cesto até a praia – dentro desse cesto havia uma criança. Pela primeira vez os seres eternos sentiram algo, mas como era a primeira vez que eles tiveram tal sentimento, não conseguiram compreender que sentimento era aquele. Pegaram a criança – ela necessitaria de cuidados – e foi então que perceberam no cesto restos de uma maçã envenenada. A criança não duraria muito, mas mesmo assim eles cuidariam dela.

A criança cresceu e se tornou uma linda moça, a qual cultivava uma estranha expressão facial. Frequentemente sua boca se esticava e suas bochechas faziam com que seus olhos cerrassem levemente, algo jamais visto pela perene aldeia. Era estranho, mas agradável de se ver.

A criança parou de crescer, mas seu rosto continuou se transformando. Rugas apareceram em sua face, seus cabelos perderam a cor, seu corpo não parecia o mesmo, mas ela ainda continuava cultivando a mesma expressão que tanto impressionava os aldeões. Eles se perguntaram como aquela criança pôde mudar tanto tão de repente. E, quando a criança compartilhou seu último sorriso, eles perceberam a resposta. A concepção da finitude é o que torna as coisas preciosas. De certa forma, a maldição não era a morte, mas a irrelevância da eternidade.