(Camila Valentoni Guelfi)

No princípio, Deus criou os seres humanos e nada mais; Seu projeto não era ser o todo poderoso, não era ser o senhor de tudo. Deus criou para si os seres que chamou de seus filhos, companheiros, obras-­primas, à sua imagem e semelhança. Entretanto, os fez tão complexos e tão perfeitos, que herdaram do Pai uma importante característica, a de criar.

Desde então, ao se comunicarem uns com os outros, os seres humanos foram criando os sentimentos e, cada vez que se sentiam insatisfeitos, criavam algo. O primeiro dos homens se sentiu inseguro e criou a Terra, o planeta, um lugar estável em que pudesse habitar com sua mulher e filhos, uma massa esférica que o atrairia sempre que tentasse se desprender, a fim de que nunca estivesse perdido. Ele e sua descendência ficaram presos a ela por toda a eternidade.

O tempo passou, mas às vezes demorava demais para passar, e uma das netas daquele primeiro homem, desesperada de tão ansiosa, criou a água e os oceanos, pois com as ondas nasceriam os ritmos, os pulsos que tão bem orquestrariam o tempo. Tudo ficou calmo, extremamente calmo. A mulher, ao passo que os mares se enchiam, já não podia se mover na mesma velocidade de antes, não conseguiu escapar, se afogou na calmaria que tanto desejara. Condenada a esperar passivamente pelos movimentos das marés para se mover, vagou por tempos e tempos até que seu corpo se desintegrasse por completo.

Eras depois, um primo distante daquela mulher, já bastante idoso se sentiu preso nas limitações de seu próprio corpo, não podendo mais correr, caçar como antes; perdera o vigor jovial. Cansado de ser um fardo para sua aldeia, faria qualquer coisa por um pouco de liberdade, foi quando criou o ar e, com ele, os ventos, furacões e tempestades. Mas nunca mais pôde ficar em repouso, porque, para onde ia o vento, o velho homem era levado junto.

Uma viúva, não se sabe se neta ou avó daquele velho homem – não é tarefa simples reconstituir todos esses episódios de antanho –, se sentiu sozinha. Seu marido, quando vivo, era estéril, e ela já não tinha mais juventude para dar à luz. As pessoas de seu vilarejo achavam-na esquisita, solitária, sem família. A mulher já não podia suportar quando, num ato impulsivo, criou o fogo e, como não o sabia controlar, incendiou todo o seu povo, homens, mulheres, crianças, mães e pais. Morreram todos queimados, inclusive a própria mulher.

Assim, com mais ou menos habilidades, os seres humanos foram criando todas as coisas. Deus, em toda a sua bondade e sabedoria, procurou minimizar o impacto negativo de uma ou outra criação, mas Ele era muito convicto da importância do livre-arbítrio. E assim, dotados de uma liberdade que nem sempre sabem usar, os seres humanos continuaram a evoluir, criando artes das mais variadas formas, das mais simples e singelas às mais complexas e sofisticadas. Artes sedutoras e cativantes, no seu sentido mais pleno.