(Júlio Lima)

Foi no momento em que tocou sua língua – nunca provou nada tão doce. Dissolveu-se junto de sua razão em direção a seu âmago, já era parte de si mesmo. Naquele instante quis viver, e viveu intencionalmente pela primeira vez. Já não havia tempo ou espaço, forma ou conteúdo, a noite seria eterna e o sol se punha em seu interior. Já não era nada além de si mesmo, e houve plenitude. Não precisava mais buscar, foi tomado por um desprendimento pleno, quase fanático. Abandonou seus porquês – não era necessário respondê-los.

Imagem desfocada. Seus olhos demoraram mais que o comum para se acostumar com a luz. Não havia dor de cabeça ou sede, talvez algo que se assemelhe a uma ressaca moral. Uma lágrima contornou o canto de um sorriso. Sentiu uma presença a seu lado antes de perceber a mão em seu peito – o homem do colar. As lembranças da noite anterior retornavam aos poucos e sem linearidade: o táxi, o neon, a rua, o beijo. Fechou suas pálpebras para reviver pausadamente cada memória, do gosto da vodca misturada com suor até o último ofegar antes de adormecer.

Sabia que não precisava levantar tão cedo, mas deixou-se conduzir pela mesma mão que o acordara. Sentiu-se dúbio, misto, plural; o calor do corpo que o tocava e a gélida água em que se banhavam. Era jazz, fluido, dançante; era soul, impulsivo, apaixonante. Era poesia, satisfação. Era o prazer de dois corpos errantes e insubmissos. Era religião, sua religião. Entregue a sua vontade visceral, estava livre. Não precisava de mais nada além do homem e da vida. Queda livre – e não havia fim.