(Bruna Lopes)

São Paulo, 13 de dezembro de 2016

Olá, Sílvia,

Eu realmente não sei como começar a escrever esta carta. Deveria perguntar como está? Deveria falar como eu estou? Bem, isso não importa agora.

Eu li um livro. Minha psicóloga falou que ler iria me ajudar, então eu o fiz. Não sei se esqueceu, mas eu detestava ler.

Bom, vamos logo ao livro. A história é contada por uma garota estranha de uns cinco anos, que mora com os pais, mas não os conhece. Isso soa estranho, mas é porque sua mãe tem alguns problemas mentais e o pai vive no trabalho. Quando a menina nasceu, a empregada a trancou em um quarto para protegê-la dos chiliques da mãe. Lá, a menininha vive com umas bonecas de pano, presentes da empregada, e narra como é o seu mundo. É uma criança, então é uma narrativa infantil, mas não deixa de ser um interessante relato da solidão.

Só não gostei do livro pelo simples fato de que o personagem principal sou eu – não eu literalmente, claro. Se você tivesse me falado antes que quando lemos também atuamos, eu nunca teria encostado num livro! É incrível como o escritor coloca tantos sentimentos em alguém que não existe – me encanta como um objeto, às vezes, tem mais sentimentos que alguns seres humanos. Queria apenas abraçar e chorar junto com a menininha, nós duas como se fôssemos uma só.

Gostaria também de saber sobre você. Ainda está na biblioteca da escola? Eu não gostava muito de lá, mas pelo menos podia conversar com alguém ou simplesmente ficar em silêncio a seu lado. Isso já me confortava.

Bom, a carta ficou mais longa do que eu esperava. Mas sei que você gosta de ler, então não pedirei desculpas.

Tchau (ou até algum dia),

Chris.