(Nícolas Duri Ahn)

Era uma vez, um homem. Ele vivia sozinho e carregava consigo uma doença. Uma doença grave, complicada demais para ser explicada. Deixava feridas que não cicatrizavam, algumas tão profundas que deformavam a pessoa, deixando-a irreconhecível. Era capaz de amedrontar o mais bravo, desesperar o sossegado, matar o despreparado.

As feridas que se formavam ao longo do tempo não saravam, ao contrário, ardiam, lembrando-o constantemente de cada cicatriz, desde as mais antigas até as que ainda iriam surgir.

Com o passar do tempo, o homem já não via as cores do mundo, não enxergava o sentido das coisas, não avistava esperança.

Passavam-se os dias e a enfermidade só crescia. Já não tinha apetite. Não queria mais levantar. Vivia cabisbaixo e não havia nada com que ele se importasse. Até que um dia pingos d’água soaram no chão; pareciam lágrimas. No começo achou que eram as dele, mas ao tocar o rosto, ao olhar para baixo, só encontrou o chão seco. Os sons continuaram a soar. Havia algo de familiar naquele som que conseguia chamar a atenção dele.

O som continuava e o desejo de encontra-lo só aumentava. Até que o homem levantou. As dores pareciam mais fortes do que nunca, mas ele resistiu bravamente. Começou a olhar em volta e avistou a caverna de onde se originaram os sons. Ao chegar lá, ele se surpreendeu. Viu uma pessoa com as mesmas cicatrizes, mesmas dores, mesma doença. Era como se olhar no espelho, ele entendia a dor dessa pessoa como jamais entendera a sua própria dor. Todo seu sofrimento estava se esvaindo, algo estava sobrepondo sua dor, não prestava mais atenção à doença. Ele não pensava mais em nada, ele só pensava em ajudar aquela pessoa, em ajudar a si mesmo.