(Fernanda Moreira)

Nos primórdios da humanidade, quando a escrita ainda não existia e os seres que habitavam a Terra não sabiam ainda se comunicar, cada um vivia sozinho em seu canto, fazendo suas coisas. A vida era monótona e perigosa, pois as trevas reinavam sobre aquele lugar sombrio. Todos tinham medo de vagar pelos cantos dessa terra que, em todos os sentidos, era horripilante.

Ninguém conhecia ninguém. Mesmo que as pessoas tivessem vivido vinte, trinta ou quarenta anos, elas viam esse ambiente com completa estranheza. Eles não tinham nada além da vaga ideia de sentimento e emoção.

Nunca amaram, nunca sentiram uma tristeza tão profunda a ponto de sentir o coração despedaçar. Afinal, não é possível experimentar um sentimento antes alguém o provoque.

Porém, certa vez, uma luz branca e ofuscante apareceu do além sobre a cabeça de todos. Finalmente chegou o dia em que as trevas seriam derrotadas.

Tudo se esclareceu para os humanos, nada mais era estranho ou absurdo. Em pouco tempo todos já se conheciam, muitos já haviam experimentado amizades que prometiam durar para o resto de suas vidas, houve até mesmo quem já ensaiasse relacionamentos amorosos.

Mas em tudo que é bom, há algo ruim. Conforme as pessoas foram se conhecendo, uma gama variada de sentimentos foi surgindo. Amor, raiva, paixão, ódio, felicidade, tristeza, alegria. E assim é até os dias de hoje. Enquanto alguns preferem os sabores doces e frutados da vida, outros parecem tão costumados com o amargor que sequer sentem vontade de experimentar outros sabores.