Cães defecam na areia – mas quase ninguém os nota. A maré, morna ou refrescante, chupa os corpos, apalpa-os, invadindo seus espaços e deixando a saliva salgada no relevo cada vez mais bronzeado.

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            Na sombra da amendoeira a brisa é mais fresca, erótica, quase inodora – sequer apaga o cigarro.

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            Atrás de seus óculos escuros, seus olhos orientais e míopes sequer se importam com a imagem borrada na retina.

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            Nota mental para as noites mais broxantes, quando até mesmo tuas mãos se tornam, ambas, canhotas: da caçamba da saveiro, o dia amanhece mais cedo.

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            Quase não há diferença (perceba)

            entre a ideia e o ritmo (repare):

            um decassí… ou um hepta (detalhes)

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            Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta. Ambos sabemos que não. Que para cada um que afirmamos ser há aquele – aquele mesmo – que escondemos até de nós mesmos. Assassinado trezentas, trezentas-e-cinquenta vezes.

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            Pior do que doer é não poder sentir a dor.