Como definir o carisma de uma pessoa? Se Fred fosse um sujeito expansivo, seria mais simples. Mas não. Ele é discreto de um modo quase calculado: o incisivo recuado e o esmalte gasto não inibem o sorriso fácil; o ritmo de sua voz tem a força e a leveza de um haicai; seu cheiro parece advir mais de uma alimentação frugal do que de perfumes caros; tem mãos frescas e confortáveis como as de um hare krishna. É gostoso estar perto dele, passar as mãos em seus cabelos, ler sua mão. Nem sempre foi assim.

Embora não se considerasse lá essas coisas, Fred sempre se achou dotado de uma inteligência fora do comum. Por si só isso não era motivo de orgulho, visto que, como quase todo mundo, ele dependia de aceitação social e não se enturmar o fazia sentir-se estranho como uma hipálage ou uma carúncula, quando chamadas pelo nome. Logo após o fim da adolescência, leu tardiamente um livro do Gaiarsa ou do Botton que lhe deu boas dicas de como disfarçar seu medo da realidade, das pessoas, das coisas concretas. Obviamente, abrir mão do palavreado não lhe seria simples. Mas, se não me engano, Stanislavski e Pessoa ensinam a viver como se a vida fosse ficção. Foi assim, racionalizando-se cada vez mais, que ele decidiu desnudar-se de sua capa protetora e encontrar o mundo, disse a si mesmo, adentrando-se pelos portões da faculdade particular onde ele construiria um novo ser.

Antes do primeiro dia de aula, olhando-se no espelho do quarto, Fred tirou pela última vez suas roupas antigas e vestiu-se de nudez. Sorriu para si mesmo sem mostrar os dentes.

Cinco anos depois, volta para casa, esquece-se do banho e cai na cama sorrindo, mal se lembrando da época em que sentia dores nas costas de tanto ler sentado no chão. No guarda-roupa à sua esquerda, no fundo falso da gaveta de meias, escondem-se capas recortadas dos livros de sua juventude – lembrança discreta da qual ele não conseguiu se desfazer. Jazem ali esquecidas como evidências invisíveis de um crime imperfeito que aparentemente deu certo.