IMG_20160123_105512314-01.jpeg       Para M. U.

     Belo e especioso. Mesmo se localizando numa das áreas mais poluídas de São Paulo, o Parque do Ibirapuera se traveste de escape, cisão e ruptura, quando mais justo seria vê-lo como um simples anestésico cujo valor paliativo encobre e fortalece a languidez, sem nunca combatê-la de fato. Ainda assim é para lá que vou nesta manhã de sábado, esperando encontrar alento e entusiasmo, algo que dê corpo e alma para alma e corpo vivendo em desunião, um modo de deixar cultismos e conceptismos na estante, junto ao bardo e ao padre; lá é seu lugar.

       Chego ao parque, sintonizo tato, olfato e audição. A poeira dos ciclistas, os passos lentos dos obesos e a brisa matutina ensaiam aparecer. Motores, cores metálicas, pálidas expressões esmiúçam-se conforme me adentro e me esqueço do mundo lá fora. Escuto ao longe um violonista amador economizando notas e fazendo soar, por metonímia e inferência, acordes daquela canção de John Lennon (“Imagine all the people / Living for today”), mas ignorando ou problematizando o trecho em questão ele emenda “Clube da Esquina II” cujos versos, mesmo quando esquecidos, nos fazem pensar no passado e em toda dor atrelada à consciência de que pouco a pouco deixamos de existir. Apresso o passo e fujo da divagação.

       Levando os olhos, procurando me localizar e encontro uma placa (“Sabiá não canta no cativeiro”). Agora mais próximo do meu destino, continuo andando, paro, olho para trás e releio a placa. Noto o que reli e sorrio.

Sabiá não canta no cativeiro.

       Aprecio decassílabos disformes. Tanto quanto a recusa pelo alexandrino, eles sugerem – talvez com certo receio – uma busca ao verso simples, às redondilhas maiores, aos híbridos, ao ritmo que não se perde com regras externas. Me aproximo do Pavilhão Japonês. Os raios de sol, aos pulsos, escapam do bambuzal. A sombra morna do verão, a brisa amadeirada do lago, pedregulhos sob meus passos. De olhos fechados reconheceria o lugar – afirmo e pergunto quase que ao mesmo tempo. Haverá resposta?

     Subo as escadas de madeira, deixando para trás turistas, crianças e ruídos. Atravesso um breve corredor bem iluminado – os raios brancos do sol dão um ar de neutralidade à madeira escura, cujo verniz encobre o suspiro de seu aroma doce, quase imperceptível. O pequeno edifício, quase todo de madeira, possui beleza discreta. Sua arquitetura leve e precisa, baseada em encaixes que dispensam o uso de pregos, combina conforto e frescor, sombras e luz, se assemelhando aos kimonos de algumas fotos bem comportadas de Nobuyoshi Araki. Não sei por que, mas me vem à cabeça Tanizaki. Sento-me num tatame feito com fios de bambu entrelaçados, encosto-me à viga de madeira clara e sinto uma fragrância amendoada – seria a persiana despertada pelo sol cada vez mais quente? Enfim, aqui onde estou isso não importa. Fixo meus olhos na penumbra e penso numa peça de cerâmica de Mieko Ukeseki que se assemelha a uma concha cujas fibras eclodem tensão e solidez ao marrom avermelhado que, em outro lugar, talvez até fosse vulgar e irrelevante, mas não ali. Meus dedos passeiam por suas ondas rugosas como se tocassem a concavidade convexa de uma mão espalmada irradiando e exigindo prazer, contato. Tateio a concha até encontrar, na sua extremidade, uma abertura similar a convidativos lábios azuis. Suspeitando ter ultrapassado os limites, deixo a peça em paz. Trago meus olhos de volta ao presente e vislumbro no canto mais escuro do cômodo algo que se assemelha a uma pintura de Hokusai. Não me refiro àquela do polvo, cuja indecência não corromperá meu relato, mas sim a “Kaijo no Fuji” em cujo primeiro plano duas ondas se chocam provocando uma excitação cujas proporções reduzem o monte Fuji a uma modesta elevação no fundo do quadro.

       Submerso na voracidade com que esse quadro proveniente sabe-se lá de qual recôndito segredo me fisgou, não percebi o cheiro amendoado tornar-se mais intenso. Infelizmente não é fácil sorvê-lo, pois pequenas folhas aciculares de pinheiro preto, providas de uma umidade quente e enjoativa, adentram no recinto. Tento ignorá-las, mas em vão. Logo passam a competir com o cheiro doce de figos assados – atraentes e vulgares como o luar. Levanto-me em busca de outros aromas. Identifico pergaminhos e pinturas de rolo, e lamentaria como se lamentasse a morte das estrelas, mas não sinto sinceridade nos meus lamentos. Choro mesmo assim – ou talvez sejam apenas lágrimas. Desço as escadas e fico preocupado ao sentir o cheiro derretido dos bonecos de terracota. A lâmina da katana deve estar brilhando como nunca, pensaria se tivesse forças para tal. Bonsais, paredes, persianas, frutos, documentos, estátuas, tudo queima, tudo derrete, inclusive meus olhos. Mas não preciso deles, meus dedos são capazes de encontrar a concha. Está quente, mas ela – nascida num forno a mil trezentos e cinquenta graus – há de resistir. Tateio plásticos e vidros derretidos, tento lembrar, encontrar o caminho. Já não tenho rosto, minhas roupas derreteram-se junto com minha pele e pouco me resta na ponta dos dedos. Estou quase perdido e desolado quando a encontro, a concha. A temperatura faz com que um som sibilante escorra por suas fibras. Certamente isso não significará nada. É falso, é enganador, é especioso. Sim, mas é belo.