Do vento que passa à noite que esfria, tudo é símbolo e analogia – sentenciou o Pessoa setenta anos atrás. Infelizmente naquela época Caeiro já estava morto, não podendo, portanto, exercer sua influência a fim de limar o excesso de metafísica e subjetivismo da frase. Para meu azar, herdei a evasão de um, não o pé no chão do outro. Mesmo quando o momento pede prontidão e sobriedade, basta abrir os olhos e desobstruir os ouvidos para que no instante seguinte, quando não no mesmo instante, já esteja eu com ouvidos e olhos direcionados novamente para reminiscências, abstrações, idílios ou qualquer outro caminho oclusivo e meândrico que seja. Tento resistir: fecho novamente os olhos e apalpo meu bolso traseiro tentando reconhecer o MacGuffin. Sim, um MacGuffin, quase autêntico, fiel ao estilo hitchcockiano, de madeira sólida e densa, pequeno e delicado. É bom sentir seu toque, digo a mim mesmo sorrindo em voz baixa, talvez só em pensamento; há muita gente na Teodoro, é preciso entregá-lo cedo.

Antes que me pergunte, fui buscar o MacGuffin com um ex-aluno no estacionamento da Eca. Sabendo se tratar de uma peça rara, achei melhor economizar perguntas, afinal mal conseguia me lembrar de onde conhecia o ex-aluno, se é que eu o conhecia de fato; receei afugentar o desconhecido. Confesso que não me sentia à vontade tendo de ir novamente à cidade universitária; acho que nunca me habituei a voltar a lugares que fizeram parte do meu cotidiano. Mas, como disse, não havia escolha. Enfim, desviando das pessoas o máximo que pude, mas tendo de pedir informações numa barraca de tapiocas, encontrei rapidamente o estacionamento. O que deu mais trabalho foi achar um carro que não fosse preto, cinza ou vermelho – sério, essa foi a instrução que me passaram. Minha sorte é que, devido à presença de estudantes no recinto, não me senti à vontade para ficar parado e comecei a dar umas voltas por ali até chegar a uma curiosa árvore com raízes aéreas em frente à antiga reitoria. Foi ali, e não no estacionamento da Eca propriamente dito, que a troca foi feita. Um carro amarelo parou próximo a mim e, sem que eu reconhecesse o sujeito, recebi o MacGuffin; só isso importava. Agora era levá-lo até o centro da cidade, onde após um café ele se transformaria num presente, talvez numa boa lembrança futura. Um táxi me deixaria lá em 40 minutos, mas era preciso resolver umas coisas antes, então decidi ir a pé.

Atravessei a praça do relógio ouvindo sons de quero-queros, tico-ticos e sabiás, talvez houvesse outros cantos, mas – como ensina a psicóloga Eva Heller – o ouvido só escuta os sons que já conhece. Não sei se é verdade ou engodo, mas a questão é que ali finalmente eu aprendi a conhecer os sons que o vento faz. Dependendo das folhas ou dos galhos que ele balança e também da inclinação com que o faz, o som sai agudo e seco ou grave e doce. Fiquei pensando nisso e quando me dei conta já tinha atravessado a ponte da Eusébio – incrivelmente sem ter sido despertado pelo o espírito do Pinheiros -, passado pelo largo da batata e subido boa parte da Teodoro, talvez inebriado pelos ruídos desordenados de carros,  motos e lojas, quase peguei os fones de ouvido, mas não. Era imperativo estar ali, desperto, vivo, ciente das coisas a meu redor. De certa forma, acreditava que o sucesso do café dependia desse esforço em captar objetivamente os sinais em vez de viver ou reviver mentalmente trechos de livros e filmes ou situações que talvez existam mais na memória do que tenham existido factualmente. É por isso que dobro a Oscar Freire, para ganhar alguns momentos de tranquilidade, em que ventos e pássaros possam ser ouvidos. Vejo de relance na Artur de Azevedo alguns sobrados tentando resistir aos inúmeros prédios ou pontos comerciais que pululam por ali, subo a Augusta, atravesso a Paulista e no meio da descida percebo que minha cabeça não acompanhou meus pés. Decido então pegar o caderno de anotações e a lapiseira; começo, então, a registrar detalhes do trecho final da minha caminhada.

Ocorre que, ao ter o caderno em mãos, sem que eu me desse conta de como havia chegado ali, já estava eu na Maria Paula, rua que sempre evitei por medo de assaltantes (leia-se: mendigos; ou melhor: moradores de rua que, verdade seja dita, nunca me abordaram). Sem dúvida alguma era um sonho, e – como você sabe – quando estamos sonhando não adiantam beliscões; a dor não existe na pele, mas sim no cérebro. Então, lembrando-me de uma tática que aprendi vendo um filme do Richard Linklater, entrei num xerox, procurei um interruptor e acionei-o repetidas vezes – interruptores não funcionam em sonhos. Mas funcionou.

Envergonhado com os risos do estagiário – por alguma razão, em xerox só trabalham estagiários -, segui rumo, virando automaticamente a Brigadeiro até reconhecer aquelas paredes porosas de cujo cinza sujo a gente não se esquece. Olhei para elas como se estivesse olhando para os mármores favoritos de Michelângelo (dizem que o artista conseguia distinguir uma peça da outra pelo sabor) – como nunca fui à Itália, o exagero é perdoável. Me aproximei do casal negro de bronze na iminência do beijo quase em frente a igrejinha amarela que fica ali, ao lado da faculdade. Sempre achei bonito e significativo que seus lábios nunca se tocassem, mas que ficassem assim, eternamente à espera do momento decisivo, para sempre curtindo a melhor das expectativas, não sobrando espaço para arrependimentos ou sensações de culpa. Olho para o café do outro lado da rua, é melhor enviar uma mensagem avisando que eu cheguei. Ponho a mão no bolso procurando o celular e o encontro, justamente onde deveria estar o MacGuffin, que eu deixei cair, que se desprendeu de mim em algum lugar nesse percurso todo. Penso que lá na Teodoro talvez eu tivesse apalpado o celular e, droga!, agora mal sei por quanto tempo ele esteve comigo. Estou ao lado da estátua de bronze. Penso em olhar para ela em busca de algum conforto, mas seguro meus movimentos com receio de que a iminência do beijo – e toda teoria dela decorrente – seja apenas fruto de uma análise mal feita. Penso na Eva Heller e começo a acreditar que a gente não vê o que já conhece, mas só o que quer conhecer. Penso em diversas citações e alegorias que poderiam, mas não vão me consolar. Penso no Pessoa, ele mesmo que para ser um teve de se dividir em muitos, ele mesmo símbolo e analogia. Desisto e vou ao café sozinho.