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nuno.tif

            Ainda era inverno, mesmo que temperatura, mormaço e chuvas descompassadas sugerissem que não – mas ali dentro você está protegida: a brisa artificial de ares-condicionados reflete no tubo de metal que sai da tela trazendo (a brisa, não o metal) conforto. O metal provoca sensações contraditórias. Frio, leve, rígido, pleno, sugere força sem ser ameaçador, como se a suposta perfeição de sua superfície – quando assim compreendida – nos fosse um tipo de alívio. Alívio bem-vindo, diga-se, pois estamos diante de um quadro que muito lembra um estranho relevo raramente visto em livros de geografia. Se numa pequena área no canto esquerdo há tons quentes e alegres, quase carnavalescos, a seu lado parece haver uma densa e úmida caverna, cujos roxos, azuis, lilases e abacates sugerem que a pintura, mal nascida, já estivesse em decomposição. O cheiro de tinta flutua pela sala como se o artista mal tivesse finalizado o trabalho – estaria ele imerso em algum ambiente do recinto? Você se pergunta que tinta é essa, mas não ouve resposta; são muitas as que ainda carregam seu naco de vida, pulsando em silêncio, quase às escondidas, naquelas desordenadas, mas congruentes pranchas rítmicas.

            Sem perder o quadro de vista, você dá dois passos para trás. Projeta-se um pouco à direta, altera a perspectiva, como se estivesse procurando um outro quadro dentro do mesmo quadro, mas na verdade – provavelmente sem se dar conta – está em busca de um outro olhar dentro dos mesmos olhos. E lá o encontra, o reflexo de pinceladas amarelas cujo efeito nos convida ao mergulho na madeira dura, chapada; impenetrável. Não somos nós que nos adentramos, mas ele (o quadro) que parece vir a nós, nos convidando a vê-lo de outros lugares, com outros olhares, evidenciando aquilo que mais costumamos ignorar: o quanto nosso modo de ver afeta a visão. E não é mais ou menos isso que acontece quando Gulliver encontra os Houyhnhnms?