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Em meados de 2013, antes de iniciar as filmagens de (mais) um projeto pedagógico com meus alunos no Parque do Ibirapuera, ofereci a eles algumas framboesas vermelhas que, no mesmo dia, havia colhido no meu quintal. Pedi que eles tentassem descrever os sabores que iam sentido à medida que o pequeno pseudofruto se dissolvia em suas bocas. A ideia era lhes apresentar a noção de frutado (em oposição a doce) – coisa que nada tinha a ver com o filme que estávamos fazendo, mas enfim…

Eis que um ano e meio depois daquela experiência, o Ruan – irmão da Mel, filho da Flávia e do Ricardo – me envia um texto descrevendo as sensações que uma fatia de bolo e uma xícara de chá lhe trouxeram.

Este ano, ao trabalhar crônica em sala de aula, falei para os alunos que a função desse gênero textual não era exatamente exercitar a imaginação e criatividade, mas sim aguçar nossa capacidade de observar o mundo à nossa volta. Do mesmo modo, treinar descrição não é simplesmente um ato verbal puro em si, mas sim um diálogo com os nossos próprios sentimentos e sensibilidades.

Que o Ruan encontre outros sabores para compartilhar conosco!

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Ruan Rossato

O chá de flores esquenta e seu cheiro escorre pela mesa de madeira velha. Do bule de cerâmica amarelada e emaranhado de flores azuis, a fumaça branca sobe sonolenta e brincalhona. Conforme o jasmim e a camomila escorrem amarelos na pequena xícara, o perfume doce se intensifica e os fumes emergem em profusão, bruxuleando a suave luz. Ao tocar os lábios, a bebida quente brinca com a imaginação: o sabor das flores colore os olhos de amarelo e vermelho, o suave toque de uma terra vermelha manchada de Sol atrai o paladar qual um precipício, um amante. O dourado deleite descansa, então, no largo pires que, também sedento, guardara para si algumas gotas travessas, quando o bolo castanho chega à pequena mesa redonda. Salpicada de açúcar da terra, a cobertura em cristal da fatia brilha como fossem pequeninos pingos de orvalho fresco a lhe recobrir. O garfo prateado lhe desmancha um pedaço que cheira a canela e infância, e se repousa suave na busca umedecida. O sabor da massa molhada invade todo o paladar que se exalta em euforia: Maçã! Canela! Uvas! Açúcar! Nozes! E à medida que o bolo some do prato e o chá da xícara, novos sabores, novas combinações. Jasmim com passas, maçã molhada a chá verde, canela que se bebe; calor que se esfria… Açúcar que se acaba… O último gole… A última garfada… O Sol cai e é hora de descer da alta cadeira de costas baixas, agradecer à gentil senhora que com sorrisos me trouxe um pequeno universo de sabores e sair porta afora; sabendo que logo voltarei.