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(O texto a seguir é fruto de uma análise coletiva, realizada por alunos do EF II e EM durante reunião dos Estudos Narrativos – que, apesar do nome, não se limita a apenas um modo de contar histórias)

Alkam Hassan - Low Tide - Brighton Beach

Um indivíduo sozinho na beira da praia. À direita da foto: a cidade imersa na penumbra À esquerda: o mar e alguns pássaros; uma nuvem densa e escura – mas menos escura que a penumbra que encobre a cidade. Na parte de cima: o céu claro, cujo azul recebe traços amarelados dos raios solares; e um pássaro, em destaque, voando alto. No primeiro plano: o reflexo do sol parece cortar a fotografia em duas, deixando do lado direito algum tipo de carcaça.

A profundidade de campo é grande. Como tudo está focalizado, temos uma sensação de amplitude; o indivíduo livre, perante a natureza. Obviamente não chegamos a essa sensação apenas pela profundidade de campo. O amarelo quente emanado pelo sol gera conforto e aconchego, chegando mesmo a inibir o potencial melancólico do azul que, nesta foto, nada tem de ameaçador. Mas, como você deve suspeitar, as cores não trabalham sozinhas na foto. Com um ponto de imaginação e boa vontade, podemos notar um círculo em volta do indivíduo – detalhe sutil e elegante para guiar nossos olhos ao protagonista desta cena.

E eis ele, olhando para o horizonte, para o oceano, para o sol, para a nuvem misteriosa, talvez para o pássaro. Costas viradas para a cidade – insisto: recoberta pela penumbra; costas viradas para a carcaça, também na penumbra. Esse par antitético está longe de ser original (lembre-se de A cidade e as serras, de Eça de Queirós), mas isso não importa. Arte não é uma corrida de 100 metros. Quem ganha não necessariamente precisa chegar primeiro; para ganhar não é necessário ir aonde ninguém foi; o modo como o artista conta a história é o que nos importa aqui. Tematicamente, podemos dividir a foto em duas partes: de um lado a natureza, misteriosa e insinuante; do outro a civilização, sombria e sem cores. No meio, o indivíduo, mirando – desejando? – a natureza, mas ao mesmo tempo preenchido por uma penumbra tão citadina. Está ele desejando romper a barreira que separa o que ele é e aquilo que ele deseja ser? É uma hipótese… não há gabaritos para analisarmos essa foto – do mesmo modo que nem de longe insinuo que essa interpretação deva impedir que você faça a sua própria. Ler uma fotografia também é uma espécie de arte e, como sugerido agora há pouco, artes não são excludentes.

Se a análise de meus alunos tivesse parado aqui, eu já me daria por satisfeito, sem ressalvas. Mas, merecendo ou não, fui agraciado com uma sacada que fez com que eu me emocionasse ainda mais com a foto.

Um dos alunos fez as seguintes observações:
1) O sol – e seu reflexo estendendo-se pelo chão – divide a imagem em duas (natureza x civilização);
2) A cena ocorre no final da tarde (isso é fato, se for o caso, use o google imagens para comprovar), ou seja, próximo ao anoitecer.

Analisando esses dois detalhes de modo simbólico, temos a sugestão de que o indivíduo precisa decidir logo se vai ou não abandonar a vida de penumbras, visto que em breve o sol vai se pôr e não haverá mais o que escolher. De muitas formas, essa interpretação parece ser uma alegoria da vida. Quantas vezes não estamos insatisfeitos com algo, mas hesitamos em tomar a decisão necessária para resolver o problema? Quanto mais hesitamos, menos tempo temos. Citando um outro aluno (agora, já ex-aluno): o tempo não para, mas faz com que paremos. Se não tomarmos cuidado, é isso mesmo que acontece. É como se fotografia nos sussurrasse: “Se temos vida, aproveitemo-la!”