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LEITURA---O-Incolor-Tsukuru-Tazaki-e-Seus-Anos-de-Peregrinação---07-10-14[3]Foi uns quatro ou cinco anos atrás, por indicação de um amigo, que comecei a me interessar por literatura japonesa. Passei por Bashô, Tanizaki, Kawabata, Kawakami e mais alguns outros, aventurando-me por haicais, romances e alguns ensaios. Em comum, o que mais se destacava eram o apego sensorial e a sexualidade, esta quase sempre vista a partir de uma perspectiva – digamos – não padronizada. Idosos tarados, idosos buscando a todo custo lutar contra a suposta animalização decorrente da tara, mulheres densas, homens submissos e opressores ao mesmo tempo, lesbianismo etc. Até que cheguei ao favorito da vez, Haruki Murakami, de quem li Norwegian Wood, Minha querida Sputnik, a trilogia 1Q84 e, mais recentemente, O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação. Antes de comentar com mais proximidade este último livro, gostaria de investigar o que me fez gostar tanto deste autor. Caso eu consiga fazer isso, talvez o exercício também lhe seja útil.

 

Eis a proposta: tente entender os motivos que te levam a gostar disto ou daquilo. Sim, de modo geral, somos passivos perante aquilo que chamamos de nossas preferências. De modo geral, não questionamos nossos gostos, como se eles fossem nossa própria essência e não resultados de inúmeros e complexos fatores. Obviamente, questões complexas nem sempre trazem respostas definitivas, mas não é esse o propósito. A ideia é tentar entender um pouco mais daquilo que reside, talvez às escondidas, dentro de nossas consciências.

 

Em todos os quatro romances que eu li, Murakami mescla sexo e reflexões existenciais. Convenhamos que são grandes tentações a quem tem corpo e mente sadios. Ler Murakami nos dá a sensação de que somos mais fogosos e serenos do que talvez sejamos realmente. Sem dúvida alguma, quando utilizada por um escritor de poucas e rasas qualidades, a tática se torna canhestra. E mesmo quando utilizada por escritores versados e versáteis, não deixa de ser uma tática. Ainda que tenhamos a tendência a recusar que nossos gostos e preferências possam ser antecipados e manipulados, a verdade é que todo autor consciente sabe quais são as principais características de seu público-alvo. Eu pessoalmente não me sinto ofendido com isso. Trata-se de uma estratégia que pode ser usada nos mais diversos campos do convívio humano. Por exemplo, quando preparo um bolo, eu penso em combinações que possam, ao mesmo tempo, causar estranhamento e empatia aos paladares daqueles que vão prová-lo. Quando você tentar seduzir alguém (seja um candidato a parceiro amoroso na pinacoteca, seja um possível chefe na entrevista de emprego), precisará encontrar um meio-termo em que você ofereça uma novidade sem causar rejeição. A quem ainda não leu O incolor Tsukuru Tazaki, ofereço algumas notas de degustação a partir de agora.

 

  • Citação 1:

– As pessoas podem mudar – afirmou Sara.

– Claro – ele disse. – As pessoas podem mudar. Além disso, por mais íntima que parecesse a nossa relação, e aparentemente conversássemos de modo franco, abrindo os nossos corações, talvez não soubéssemos as coisas mais importantes uns dos outros.

 

  • Citação 2:

[…] Muito vagarosamente, ele [Tsukuru] sentia a realidade escapar das coisas à sua volta.

 

  • Citação 3:

O cão latiu do lado de fora. Era um latido íntimo e especial.

 

  • Citação 4:

Tsukuru estava agora diante de uma mulher saudável que vivera uma vida completamente diferente da dele. Tsukuru não pôde deixar de sentir esse peso. Diante dela, teve a impressão de ter compreendido finalmente o peso de dezesseis anos passados. No mundo há coisa que só podem ser transmitidas através da figura de uma mulher.

 

  • Citação 5:

[É curioso] que aquela fase encantadora passou, e nunca mais vai voltar. Que muitas possibilidades belas foram sugadas pelo fluxo do tempo, e desapareceram.

 

Ficha Técnica

O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação
Título original: Shikisai o motanai Tazaki Tsukuruto, kare no junrei no toshi
Autor: Haruki Murakami
Tradutora: Eunice Suenaga
Editora: Alfaguara