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O intuito deste texto é analisar algumas cenas do filme Monanieba (aka Repetance / Arrependimento sem perdão), tentando inferir algum significado simbólico aqui e ali. Como não tenho conhecimentos profundos e específicos para tal, abro mão de traçar paralelos precisos com a história da União Soviética no século XX, a qual de um modo ou de outro permeará o enredo.

É graças ao Fábio que conheci este filme, mas não é só para ele que redijo o texto. Se for o caso, aproveite.

 

Sinopse: Monanieba começa com o anúncio da morte de Varlam Aravidze, prefeito de uma cidade na Geórgia. Após as costumeiras lamentações e homenagens, o defunto é enterrado com todas as honras. Misteriosamente, porém, o corpo é exumado – dia após dia – sempre reaparecendo no quintal da casa de seu filho Abel (nota: na legenda em português seu nome é grafado como Avel).

Notas:

ü Logo na primeira cena, antes mesmo de termos qualquer pista da história a que estamos assistindo, nos deparamos com as mãos delicadas de Ketevan (Ketô) preparando um confeito de rosa que enfeitará um dos muitos bolos que supostamente ela faz para vender. A economia e leveza desta imagem contrastarão com a imagem seguinte, em que nos vemos dentro de um pequeno apartamento abarrotado de objetos dos mais diversos. E o contraste aumenta um pouco mais quando somos apresentados ao rústico Apollon, o marido que suja a barba devorando sem classe alguma o bolo que tanto carinho e dedicação exigira. É ele quem nos anuncia a morte do grande Varlam Aravidze, um homem notável, “nunca haverá prefeito como ele”; 010203a 05  

ü Repare como, no enquadramento abaixo, o diretor retrata Apollon como um ser diminuto, sugerindo sua ingenuidade; 04

ü Em meio à pompa do velório, um detalhe antecipa os caminhos que iremos percorrer: durante um discurso importante, uma mosca sobrevoa a cabeça do palestrante, dividindo a atenção dos telespectadores;

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Neste item, especificamente, gostaria de fazer uma interpretação equivocada, mas plausível. Considere que estejamos vendo o filme pela primeira vez, sem qualquer pista do que acontece nas próximas duas horas. Abel e sua esposa, (Guliko) estão no quarto, preparando-se para o coito. Primeiramente ela reclama da presença da foto do finado no quarto. Em seguida, quando o vamos-ver estava para ter início, ouvimos um insistente uivo, o qual nos leva para o quintal, onde vemos o corpo de Varlam. Poderíamos interpretar esse episódio a partir de questões freudianas: a memória do pai impede o filho de ter uma relação sexual? Ou ainda, considerando que só sabemos das qualidades positivas de Varlam, entre elas “a virtude de fazer amigos entre os inimigos e inimigos entre os amigos”, ele poderia ser o fantasma de uma ameaça moral que paira sobre indivíduos vaidosos e mesquinhos, desesperados para enterrar o passado de modo definitivo e o quanto antes. Essa hipótese é tentadora, visto que numa das reaparições do defunto, veja só, surge a polícia e o leva à cadeia;

ü Neste momento do filme, apenas Tornike (filho de Abel, neto de Varlam) parece verdadeiramente guardar o luto. Na vigília coletiva, vemos um sujeito urinar num túmulo para logo em seguida recriminar um outro que está bebendo. Quem, escondido de todos, faz a vigília mais eficiente é justamente Tornike. É ele quem dispara contra o estranho que raptava o corpo; 

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ü Então descobrimos que o estranho na verdade é uma mulher (Ketevan Barateli, a ruiva da cena inicial). Ela confessa ter exumado o corpo para se vingar de Varlam. O clima transcendental e simbólico dá lugar a um problema psicológico, provavelmente causado por desmandos do político que finalmente iremos conhecer;

ü Além de a temática do filme ter mudado de direção (veja os termos em negrito no item anterior), o foco narrativo também oscila bastante, fazendo com que o protagonismo não fique apenas em um personagem. Longe de provocar desconforto ou confusão, trata-se de uma estratégia eficaz para mostrar o caráter multidimensional da história. A realidade é feita de diversas realidades;

ü Voltamos ao passado, justamente para a posse do prefeito (Varlam). Repetindo a mesma estratégia usada no velório, o diretor comete um “desacato”, rompendo um encanamento que jorrará água por todo lado durante os discursos – outro desacato foi ter colocado um corvo ao lado do prefeito durante o discurso;

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ü Não podem escapar à nossa atenção os inúmeros bonecos (de políticos rivais?) queimados durante o evento. E convém reparar no sujeito barbudo (Sandro Barateli, pai da mulher que relata a história) que retira a família da janela durante o discurso; 

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ü Em seguida, estamos em uma igreja repleta de sucata tecnológica, onde se ouve uma espécie de sermão citando Einstein: “É trágico o destino do cientista moderno. A inspiração dá-lhe clareza e independência interior. Através de um esforço sobre-humano, escravização social e destruição da sua personalidade. As autoridades políticas chegaram mesmo a amordaçá-lo. Terá passado o tempo em que
a liberdade intelectual do cientista e a independência dos seus estudos iluminavam e enriqueciam a vida das pessoas? Terá esquecido, na busca cega da verdade científica, a sua responsabilidade perante os homens e a sua dignidade?  […] O poder do átomo mudou tudo, menos o modo de pensar; é por isso que deslizamos para uma catástrofe nunca vista. Para que a Humanidade sobreviva, há que assumir um novo modo de pensar.”;

ü É dentro dessa igreja que ameaça desabar que encontramos os anarquistas de sua época. A analogia pode parecer inusitada (católicos anarquistas?), mas não é original. Em “O grande inquisidor” (Os irmãos Karamázov, Volume I, Livro V, Capítulo V), por exemplo, Dostoiévski nos apresenta a um Cristo libertador perante os desmandos dos Cardeais da Igreja – se tiver interesse, peça para um cristão lhe explicar de que modo Cristo pode ser visto como um opositor ao poder de César sobre os hebreus;

ü Sandro Barateli vai até o prefeito pedir recursos para restaurar a igreja. Do mesmo modo que “os nossos antepassados protegeram-nas”, seria nosso dever honrar nossa cultura. Varlam parece se solidarizar com o pedido. Ao defender a igreja, o prefeito vale-se de uma metáfora superficial e opaca, como de todo demagogo, comparando-a a uma mãe velha. Mesmo quem não percebe pistas como esta (repito as duas primeiras: a mosca e o corvo), perceberá que o prefeito se lembra de que fora Sandro quem fechara a janela durante seu discurso;

ü Em seguida, Varlam vai à casa de Sandro. Para compor uma imagem agradável, ele leva sua esposa e seu filho Abel (cuja mãe, descobriremos depois, já falecera). O mote é elogiar os quadros de Sandro, tentando incentivá-lo a produzir obras em prol da “causa”. Para tanto, Varlam não economizará simpatia: dá um passarinho de preferente a Keto (nome infantil de Ketevan), canta para Nino (esposa de Sandro);

ü Varlam é uma figura atraente. Versado em literatura (recita o soneto 66 de Shakespeare, cita o poema épico georgiano “The Knight in the Panther’s Skin”), toca piano, é dono de uma belíssima voz. Podemos nos perguntar: a cultura clássica é usada para nos lembrar da nossa humanidade ou para mostrar que mesmo com ela somos o que somos?;

ü Há no filme um tom teatral. Ficamos bastante tempo na casa dos Barateli, talvez para nos sentirmos à vontade com o prefeito, talvez para que nos identifiquemos com a “branda” opressão que a família está sofrendo;

ü Há também um tom operístico que talvez ressalte a grandeza imagética de uma pessoa como Varlam. Só isso, obviamente, não basta para ser um grande político, não basta para ser um grande homem. Sandro diz que o povo precisa de um pastor espiritual, um herói moral. Varlum, que talvez creia ter condições para isso (mas provavelmente está apenas sendo leviano), responde: “só o tempo faz nascer os heróis”;

ü A casa dos Barateli é fotografada de modo a lembrar o estilo barroco. Nino tem um estranho sonho em que ela e o marido são perseguidos pela polícia num corredor inundado (a falta de luz, as paredes próximas e a água, todo o contexto contribui para que eles se sintam oprimidos). Ao escaparem para a rua, a perseguição continua e eles vão parar no alto de uma montanha, onde o casal está enterrado. Além do absurdo da cena (há uma combinação caótica do que se assemelha a cavaleiros medievais e o conversível que leva o prefeito), que
nos conduz a um ambiente em que pavor e medo se convertem num mesmo sentimento, há a sugestão de que só a morte – ou nem mesmo ela – será capaz de salvá-los dos perigos que emanam do prefeito;

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ü Se eu contar que o prefeito e sua trupe saem da casa dos Barateli
saltando pela janela (e voltando três segundos depois para devolver o crucifixo que o filho havia pegado escondido) ou que, logo após encerrar a busca ao casal, Varlam canta mais uma vez, você seria levado a pensar que as duas linguagens fariam parte de um mesmo ambiente, mas a primeira cena faz parte da realidade enquanto que a segunda faz parte de um sonho. Ainda que possamos questionar o que é realidade nesse relato, visto que a narradora está se lembrando de eventos que vivenciou quando criança, o mais importante a meu ver é percebermos que esse relato inusitado tem uma capacidade comunicativa muito eficaz. De que outro modo poderia o artista retratar um contexto tão ímpar sem que nós, os telespectadores, tentássemos reduzir a obra a um “eu sei muito bem como é isso”?;

ü A piada da lebre: “Por que você corre?” –  perguntaram a ela. “Estão caçando lobos” – disse. “O que você tem a ver com isso?”. “Se me apanham, será uma mão de obra provar que não sou lobo.”;

ü Antes mesmo que pudessem pensar em escapar, Sandro abre a
porta e entra um cavaleiro medieval. Um dos invasores (Varlam, escondido sob uma armadura) toca piano. Os quadros são apreendidos – e ficarão sob posse de Varlam até o final de sua vida. Essa referência a Hitler e a outros ditadores que disfarçavam a crueldade sob a máscara artística lembra um pouco o filme Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick;

ü Após Sandro ser deportado, surge a pista de que seu paradeiro poderia estar escrito troncos de madeira que acabaram de chegar à estação. É significativo pensarmos nas toras como símbolo do paradeiro dos presos políticos, visto que elas próprias (as toras) são elementos que acabaram de ser subtraídas de seu habitat. O destino delas e deles parece ser o mesmo; 

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ü Então somos levado a uma luminosa e alegre cena de um casamento cristão (mais adiante, outro personagem dirá que de cristão ele só possui o crucifixo). O casamento se converte num julgamento dos mais absurdos, tanto imageticamente quanto pelo discurso. Sandrô aparece com a roupa rasgada. A noiva converte-se na justiça (cega e com uma faca na mão, mas guiada por seu esposo, o funcionário do governo); 

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ü No discurso em que procura justificar suas decisões, Varlam cita Confúncio (“é difícil pegar um gato preto numa sala escura, principalmente se ele não estiver lá”) e logo em seguida expressa, em tom aforístico, uma promessa assustadora: “Apanharemos o gato na sala escura, mesmo que ele não esteja lá”;

ü Sandrô é acorrentado, à semelhança de Jesus, e a igreja é derrubada. Separam a mãe da filha e voltamos ao depoimento;

ü O relato não é levado a sério por Abel e sua esposa, mas provoca inconformismo em Tornikê (neto de Varlam). Este se lembra do avô, já nos seus últimos momentos, num bunker, com medo do raio solar. Sente-se como se fosse uma espécie de vampiro. O desejo de apagar o sol talvez possa ser interpretado como o desejo de apagar a Deus, ou seja, de evitar o julgamento que lhe cabe;

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ü Vemos uma alucinação de Abel, na qual ele interage com o fantasma do pai. “Você tem medo de si mesmo […] A família, a causa não passam de uma autoilusão para não ficar a sós comigo mesmo. Para não pensar. Em quê? Em algo mais importante. Quem é você? Por que vive? Qual o sentido da sua existência? Quem é você? Por que viveu?”;

ü Como já dito, o filme costuma trocar o protagonismo, para que tenhamos uma visão multidimensional da história;

ü Após pedir perdão a Ketevan, Tornikê se mata com a pistola que ganhara de seu avô;

ü Abel, finalmente convicto dos crimes que o pai cometeu – ou simplesmente praticando uma vingança, desenterra o pai e o atira montanha abaixo. Ouvimos ruídos de corvos; a vingança de Ketevan finalmente irá se concretizar;

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ü Mas, por mais que o protagonismo das cenas seja compartilhado, o filme tem de acabar com aquela cuja versão recebe maior destaque; voltamos à cena inicial e vemos a notícia da morte de Varlam. Um detalhe sutil e significativo é que agora vemos a foto de Varlam pela perspectiva de Ketevan, ou seja, de ponta cabeça;

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ü Se pensarmos que o diretor optou por um protagonista incorpóreo, ele aparece na última tomada, quando uma desconhecida pergunta se aquela rua (Rua Varlam) leva à igreja. Como a resposta é negativa, ela lamenta: “para que existem ruas que não levam à igreja?”. 

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Extras:

Monanieba é o terceiro filme de uma trilogia que conta com Súplica e Árvore do Desejo.

Soneto 66 (William Shakespeare – tradução de Ivo Barroso)

Tired with all these, for restful death I cry,

Farto de tudo, a paz da morte imploro

As to behold desert a beggar born,

Para não ver no mérito um pedinte,

And needy nothing trimm’d in jollity,

E o nulo se ostentando sem decoro,

And purest faith unhappily forsworn,

E a fé mais pura em degradado acinte,

And gilded honour shamefully misplac’d,

E a honra, que era de ouro, regredida,

And maiden virtue rudely strumpeted,

E a virtude das virgens violada,

And right perfection wrongfully disgrac’d,

E a reta perfeição ser retorcida,

And strength by limping sway disabled

E a força pelo fraco subjugada,

And art made tongue-tied by authority,

E a prepotência amordaçando a arte,

And folly—doctor-like—controlling skill,

E impondo regra o tolo doutoral,

And simple truth miscall’d simplicity,

E a verdade singela posta à parte,

And captive good attending captain ill:

E o bem cativo estar do ativo mal:

Tir’d with all these, from these would I be gone,

Farto de tudo, a morte é o bom caminho,

Save that, to die, I leave my love alone.

Mas, morto, deixo o meu amor sozinho.

 

 

Ficha técnica*:

Monanieba / Repentance / Arrependimento sem perdão

URSS (Georgia) / 1984 / cor / 153 min

Direção: Tengiz Abuladze

Roteiro: Tengiz Abuladze, Nana Janelidze, Rezo Kveselava

Música: Nana Janelidze  

Cinematografia: Mikhail Agranovich 

Edição: Guliko Omadze

Elenco: Avtandil MakharadzeIa Ninidze, Zeinab Botsvadze, Ketevan Abuladze, Edisher Giorgobiani, Kakhi Kavsadze, Merab Ninidze, Nino Zakariadze, Nano Ochigava.

Idioma: georgiano.

 

* http://www.imdb.com/title/tt0093754/?ref_=ttspec_spec_tt