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O texto nu:

A sala – enorme – emoldura o ambiente de um videogame interativo e customizado. O Ipod evoluiu a ponto de atender a solicitações das mais inusitadas (“uma música depressiva, por favor”). O sistema operacional é tão avançado que se torna mais interessante que a maioria das pessoas. Tudo parece hi tec, clean, slim – menos o protagonista, patologicamente retrô com seu bigode de Tom Selleck, sua camisa de lenhador e sua insegurança que tanto remete ao começo dos anos 80. Talvez muitos de nós sejamos como ele: seres psicologicamente reduzidos perante a dimensão de um presente que parecia destinado a acontecer apenas num futuro distante, seres cada vez mais fora de sua época e lugar. Ser e estar não se conjugam mais como antigamente.

A radiografia:

A sala – enorme – emoldura o ambiente de um videogame interativo e customizado. O Ipod evoluiu a ponto de atender a solicitações das mais inusitadas (“uma música depressiva, por favor“). O sistema operacional é tão avançado que se torna mais interessante que a maioria das pessoas. Tudo parece hi tec, clean, slim – menos o protagonista, patologicamente retrô com seu bigode de Tom Selleck, sua camisa de lenhador e sua insegurança que tanto remete ao começo dos anos 80. // Talvez muitos de nós sejamos como ele: seres psicologicamente reduzidos perante a dimensão de um presente que parecia destinado a acontecer apenas num futuro distante, seres cada vez mais fora de sua época e lugar. Ser e estar não se conjugam mais como antigamente.

Observações:

a) Na primeira parte (antes do //), o fundo verde indica elementos de tecnologia avançada, sugerindo que se trata de algo positivo. O travessão, logo após três expressões em inglês (de propósito para que o “distanciamento” linguístico sugira o distanciamento psicológico), traz elementos (com fundo rosa) que mostram que nem todo mundo se sente à vontade com o contexto futurístico;
b) A referência a Tom Selleck é interessante por alguns motivos: ele tem / tinha um bigode que hoje é visto como muito antiguado. E se o leitor não o reconhece, essa é mais uma evidência do quanto ele está fora do nosso tempo;
c) Lenhador, trabalhador braçal, também é algo que não se valoriza mais numa época em que o computador deve trabalhar para a gente;
d) A referência ao início dos anos 80 é, como se diz em jogo de baralho, um blefe. Mesmo que o leitor não saiba que naquela época (ainda guerra fria) houve crises financeiras fortes, ele sente que se trata de algo muito distante do presente;
e) Na segunda parte (após o //), deixamos o intertexto para enfim chegar ao tema. As cores rosa e verde retomam a antítese inicial;
f) Numa releitura, o ” – enorme – ” destacado lá no começo do texto, parece menos agradável. Para simbolizar espaços vazios, solidão, tristeza. Não por acaso a palavra é isolada pelos travessões;
g) Ah, o “Ser e estar não se conjugam mais como antigamente.” faz referência ao nosso idioma (em inglês essa oposição não se dá pelo léxico – usa-se o “to be” para ambas as situações) e também à nossa essência (essere) e à nossa condição atual (estarmos).