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Texto feito especialmente para aqueles que vão ao clube de cinema (14 de agosto em São Paulo; 29 de agosto em Valinhos).

Nosso primeiro contato com o filme se dá aos 20 segundos. Antes de aparecer qualquer imagem, inicia-se a trilha sonora. Os acordes, ao serem entrecortados por instantes de silêncio, trazem certa tensão – reforçada pelo fato de ainda não termos visto nenhuma imagem. O primeiro som diegético (aos 24 segundos) e a primeira imagem (aos 27) nos levam a observar o trânsito noturno de uma metrópole. Aos 30, é possível vislumbrar o reflexo de um vidro, indicando que estamos dentro de um veículo (no caso, um vagão de metrô), olhando para o triste e solitário anonimato da noite, do qual o próprio vidro nos separa de modo literal e simbólico.

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Aos 36, uma melodia parece invadir timidamente a trilha sonora (o tom ainda é melancólico). Aos 46 vemos o reflexo de um homem de meia-idade (45 anos mal conservados?). Aos 50, ele ocupa o ponto de ouro mais valioso da tela, e pouco a pouco sua imagem vai sendo centralizada. Como até então se trata da única pessoa identificável, não restam dúvidas de que ele é o protagonista da cena.

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Aqui você já deve ter percebido que, para reforçar o sensabor da situação, o veículo parece andar em círculos (no sentido anti-horário, vale ressaltar; afinal, numa cena futura, haverá movimento similar – desta vez no sentido horário – que terá significação bem diferente desta).

Também vale a pena observar que, ao deslocá-lo do ponto de ouro para o centro da tela, o diretor faz com que vejamos muito pouco do objeto de sua observação (a cidade escura e anônima), o que parece acentuar ainda mais a solidão do indivíduo.

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Em 1,18, ele está numa mercearia cujas prateleiras estão repletas de comida enlatada, as quais – assim como os fast food – sugerem uma sociedade sem tempo para si. E como o intuito é retratar o cotidiano solitário e infeliz do cidadão, tudo está muito harmônico.

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Em 1,47, um enquadramento dos mais meigos. Saindo da mercearia, o – assim nos parece – protagonista é apresentado como um ser frágil e indefeso.

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Não à toa, a imagem lembra uma criatura das mais fofas do cinema:

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Dizer mais seria dar spoiler. Então fiquemos por aqui. Abraços e bom filme.

Ficha técnica*
Air Doll
Título original: 空気人形 Kūki Ningyō
Japão / 2009 / colorido / 125 minutos
Direção: Hirokazu Koreeda
Produção: Hirokazu Koreeda, Toshiro Uratani
Roteiro: Hirokazu Koreeda (baseado no mangá de: Yoshiie Gōda)
Elenco: Bae Doona, Arata, Itsuji Itao
Idioma: japonês
Música: World’s End Girlfriend
Direção de arte: Pin Bing Lee
Edição: Hirokazu Koreeda

* Wikipedia