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(Texto de 21 agosto, 2009)

   “Estreou semana passada em São Paulo o remake de A Onda”, alertou-me um amigo. Fui conferir.

   A primeira versão, feita para a TV norte-americana em 1981, embora tendesse ao típico maniqueísmo da época Reagan, trouxe-me algumas boas impressões. Para quem não a conhece, eis uma sinopse: professor californiano, tentando explicar a seus alunos o poder de persuasão do nazismo, resolve construir – em princípio – um grupo de estudos baseado na disciplina. Ordem, força e conjunto são os termos que os jovens passam a valorizar conforme vão incorporando os ideais d’A Onda (The Wave), nome dado ao grupo.

   A maior parte dos estudantes não percebe, mas em nome de um equivocado senso de coletivismo, eles acabam abandonando suas individualidades – pensam estar se tornando especiais quando na verdade transmutam-se em simples massa.

   No fim do filme, o professor lhes revela o verdadeiro propósito do grupo: mostrar de que modo um partido ditatorial como o nazista pode ser persuasivo a ponto de conquistar pessoas (ingênuas, mas) bem intencionadas. A cena final é significativa: Robert, o aluno deslocado que viu n’A Onda um sentido para sua vida vazia, fica em prantos. Para ele, assumir as responsabilidades decorrentes do livre-arbítrio talvez fosse mais um fardo do que uma dádiva. Quando escrevi sobre esse filme, mais do que me preocupar com a superficialidade de adjetivá-lo como bom ou ruim, hipervalorizado ou menosprezado, preferi analisá-lo como um oportuno recado contra a massificação travestida de solidariedade (a virtude nomeia o vício). Alguns amigos não gostaram do filme, pois viram nele um alerta maniqueísta contra a ditadura comunista. Concordo com eles em quase tudo. Creio, porém, que, assim como A revolução dos bichos, de H. G. Wells, A Onda traz um alerta contra diversas formas de totalitarismos, não apenas contra o império vermelho.

   O “remake” possui nova estampa: a história é agora ambientada na Alemanha; o professor responsável pelo projeto é mais jovem em amplo sentido: possui vigor físico, ouve rock, é simpatizante da anarquia e não se preocupa em preparar suas aulas com muita antecedência. Se eu me preocupasse em fazer uma leitura paralela, destacando as vantagens e desvantagens de uma ou outra versão, diria que a segunda é menos clara – talvez menos didática – no que diz respeito a associar A onda (Die Welle) ao partido nazista. No entanto, isso não me parece o essencial. Por outro lado, considero extremamente relevante comparar a diferença nos desfechos.

   Na versão norte-america, podemos dizer que, exceto para Robert, há final feliz: o professor se valeu de uma dura, mas competente lição de vida. Me pergunto: qual seria a função de refazer esse filme sem incorporar nenhuma nova reflexão? Sem – digamos assim – atualizá-lo? Imagine o perigo que seria um educador que, inspirando-se no final feliz do primeiro filme, pretendesse pôr em prática ideia similar. Pensando nisso, ou não, Dennis Gansel, o diretor da versão atual, resolveu problematizar um pouco mais a história. Como Reiner Wenger, o professor, assumiu um risco imenso ao tentar controlar os cérebros de seus pupilos, seria forçar demais a barra se ele passasse impune. A história cultural nos mostra que aquele que busca sorver-se de poder absoluto (vide Blade Runner, O Golem, Frankstein, ou o “conto alexandrino”, este de Machado de Assis) acaba se afogando.

   Ao contrário do que o amigo me disse, Die Weller não é um remake de The Wave. Trata-se de um, na expressão de Ezra Pound, make it new. Mais importante do que refazer por refazer, é renovar aquilo que a cultura já produziu. É uma diferença pequena, mas fundamental.

Ficha técnica*
A Onda
Título original: Die Welle
Alemanha / 2008 / cor / 107 min
Direção: Dennis Gansel
Produção: Christian Becker, Nina Maag, Anita Schneider
Roteiro: Dennis Gansel, Peter Thorwarth
Elenco: Jürgen Vogel, Frederick Lau, Max Riemelt, Jennifer Ulrich, Jacob Matschenz
Idioma: alemão
Música: Heiko Maile
Cinematografia: Torsten Breuer

*Dados da wikipedia.